Por Paulo Muppet

No post anterior levantei a questão se diferentes visuais/estilos de desenho de personagens provocariam diferentes intensidades de conexão emocional com o público. Em um extremo, a imagem fotográfica é realista, em outro extremo a imagem abstrata é simplificada do cartoon.

Um ótimo lugar para começar a responder essa questão é a obra fundamental sobre quadrinhos e narrativa visual Desvendando os Quadrinhos de Scott McCloud. Esse livro foi um divisor de águas na compreensão das narrativas visuais nos últimos 20 anos e Scott McCloud rapidamente tornou-se autoridade mundial no assunto, sendo convidado a palestrar nos mais importantes centros acadêmicos como a Universidade de Harvard, UCLA e MIT mas também em companhias na vanguarda da produção visual mundial, como Pixar, Google e Adobe.

Uma breve palestra sobre a pesquisa de Scott McCloud pode ser vista aqui.

McCloud acredita que nos conectamos mais intensamente com imagens cartoon do que com imagens realistas. Por isso, ele diz, personagens em cartoon são mais populares, mais duradouros e mais abundantes em nossa cultura.

Por quê nós somos tão envolvidos?

Por que iria qualquer um, jovem ou velho, responder ao cartoon tanto quanto ou muito mais do que a uma imagem realista?

Por que nossa cultura está tão atrelada à realidade simplificada do cartoon?

Para explicar esses fatos, McCloud usa dois argumentos principais.

O primeiro tem a ver com nosso auto-centrismo e o fenômeno conhecido como Pareidolia, a habilidade de enxergar rostos em qualquer lugar com duas bolinhas e um risquinho.

Esse “superpoder’, derivado de uma grande vaidade natural do ser humano, nos confere a facilidade necessária para identificar seres humanos nas formas abstratas do cartoon.

O segundo argumento tem a ver com nossa auto-imagem.

McCloud diz que quando observamos o mundo externo vemos uma imagem realista, com toda a riqueza de detalhes, cores e luzes que nossos olhos conseguem captar. No entanto, não podemos ver a nós mesmos a não ser que estejamos em frente a um espelho.

Segundo McCloud, nos colocamos no mundo criando um tipo de “projeção” de nós mesmos dentro da nossa cabeça. Essa projeção seria uma versão simplificada e com menos detalhes do que a imagem do mundo real.

Uma projeção interna mais próxima, portanto, do desenho do cartoon do que das imagens realistas.

Por isso, McCloud acredita, as imagens realistas falam do mundo externo, enquanto o desenho simplificado do cartoon nos conecta com nosso mundo interno, tornando mais fácil a empatia e conexão emocional com o personagem.

McCloud vai ainda mais longe em sua análise do significado do estilo de desenho, defendendo, por exemplo, que personagens cartoon contrastando com cenários realistas, como na tradição do mangá japonês, permitem ao mesmo tempo que o leitor se espelhe emocionalmente nos personagens enquanto experimenta a sensação de um mundo sensual e crível através dos cenários.

A narrativa de McCloud é bem construída e convincente, trazendo muitos argumentos e exemplos de várias ciências humanas e de uma excelente pesquisa de história da arte. No entanto, McCloud pouco se utiliza da biologia para colocar em cheque seus palpites e é exatamente isso que faremos nos próximos posts.

Mais uma vez, fiquem à vontade para comentarem aqui embaixo!

Obrigado e até breve!

Paulo Muppet

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  • Licinio Souza

    acompanhando e fazendo o esforço p entender o maximo q me seja possivel ahah 🙂

  • nathalia m m

    ótima pesquisa, bem fundamentada , sempre gostei de me autoprojetar em algo mais simples , e sim, vemos rostos em tudo quanto é objeto hahha