A primeira questão levantada por McCloud na disputa do Realismo vs Cartoon é a de como explicar nossa capacidade de reconhecer personagens em imagens tão abstratas quanto dois pontos pretos e um traço.

McCloud se utiliza do conhecido fenômeno da Pareidolia (ver post anterior) e argumenta que essa habilidade é fruto da nossa vaidade natural de enxergar nossos semelhantes em qualquer lugar.

Como posicionar a Pareidolia em um contexto evolutivo? Será a habilidade de ler faces em imagens abstratas uma adaptação humana ou um comportamento herdado dos nossos antepassados? O ponto de partida para responder essa questão é descobrir se outros animais também reconhecem personagens cartoon.

Por sorte, não precisamos convencer um tigre a ler a Turma da Mônica para isso, pois a natureza tem sua própria forma de Cartoon.

Todo mundo se lembra das borboletas e mariposas cujas manchas nas asas parecem olhos, exemplo clássico de mimetismo. Esses falsos olhos são chamados “ocelos”, e simulam olhos de animais maiores como a coruja, afastando os predadores.

Várias espécies de borboletas e mariposas se utilizam dessa estratégia, com desenhos variando em similaridade com olhos verdadeiros.

O fato desse tipo de disfarce ter sido favorecido pela seleção natural é evidência que mesmo desenhos menos elaborados já conferem vantagens para seus portadores.

Certamente as borboletas e mariposas não desenvolveram essas estampas para enganarem os seres humanos, então quais animais estão sendo enganados por esses pontos pretos em suas asas?

Entre os predadores conhecidos das borboletas e mariposas estão aves (corujas e outros pássaros), mamíferos (morcegos, gatos, vários roedores) e répteis (alguns tipos de lagartos). É razoável concluir que pelo menos parte deles reconhecem esse par de pontos pretos dispostos simetricamente como sinais fundamental de um animal maior.

Ora, aves e mamíferos são animais considerados inteligentes, será possível que eles também tenham seu próprio tipo de Pareidolia? Seria útil observar se esse mesmo tipo de mimetismo pode ser observado em animais cujos predadores sejam animais filogeneticamente “anteriores” como anfíbios ou peixes.

De fato, olhos falsos para espantar predadores podem ser observados em algumas espécies de peixes e sapos, cujos predadores figuram também entre animais com cérebros mais simples.

Aparentemente, a “programação” de reconhecer um “personagem” a partir de pontos pretos predata os homens em muitos milênios e provavelmente devemos compartilhá-la com animais tão diversos quanto aqueles cujos olhos também lembram pontos pretos.

Animais que usaram esse sinal visual simples para reconhecer parceiros, predadores ou presas certamente levaram vantagens evolutivas.

Faz sentido também imaginar que quanto mais genérica essa “programação”, mais tipos diferentes de olhos e consequentemente de animais ela era capaz de identificar. Em um mundo onde não existiam tomadas ou outros objetos artificiais, a probabilidade de dois pontos pretos do mesmo tamanho e dispostos simetricamente serem de fato olhos era grande, e a natureza nunca precisou atualizar essa programação para excluir da lista olhos falsos como aqueles que desenhamos em nossos personagens.

A resposta mais provável do porque reconhecemos personagens no cartoon não está na complexidade ou capacidade de abstração do cérebro humano, mas na simplicidade de um sistema que funciona nos animais muito antes de surgir o primeiro homem.

É curioso que o traço que representa a boca não é necessário para que esse sistema funcione, mas o fato de incluirmos a boca na nossa representação comum do personagem cartoon denota sua importância para nossa leitura de rostos e, em especial, das emoções.

Diferente dos pontos pretos dos olhos, que servem para que a gente reconheça o rosto de um animal, as bocas estão diretamente relacionadas com a demonstração de emoções.

Assim como no caso dos olhos, também é razoável acreditar que animais que comunicam emoções usando a boca, notadamente mostrar os dentes como sinal de ameaça, comportamento comum em muitos mamíferos, também devem reconhecer formas de boca simplificadas.

O traço que representa a boca, portanto, deve ser evolutivamente mais recente que os olhos e depende da presença deles para funcionar como abstração, enquanto os pontos pretos do mesmo tamanho não dependem de nenhum outro sinal para funcionarem.

Essa análise joga luz sobre o porque reconhemos personagens em desenhos cartoon, mas não diz muita coisa ainda sobre nossa conexão emocional com esses desenhos.

É sobre isso que falaremos no próximo post.

Paulo Muppet

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