Por Paulo Muppet

No post anterior vimos que a habilidade de entender personagens a partir de dois pontos pretos é comum por toda a natureza e é uma “programação” herdada pelo menos desde nossos ancestrais com os peixes há milhões de anos atrás (na verdade, em peixes apenas um ponto em cada lado do corpo é suficiente, já que só vemos um olho de cada vez).

Longe de ser um avançado sistema de reconhecimento de rostos que depende de um cérebro sofisticado, ela é uma solução simples que usa um mínimo de sinais visuais para concluir uma informação muito relevante à sobrevivência.

Também vimos que um terceiro sinal, a linha da boca, é mais recente na evolução e está ligado a interpretação das emoções.

Animais que vivem em grupo em pelo menos parte de sua vida, que competem por comida, território ou parceiros reprodutivos foram selecionados de muitas maneiras em suas habilidades de comunicar emoções e em ler emoções alheias.

A pressão evolutiva de entender emoções ajudou a moldar em nosso cérebro a área chamada de raciocínio social.

O raciocínio social é super especializado em entender como as pessoas funcionam. Ele ocupa uma função tão grande em nosso dia a dia que frequentemente se mete em lugares onde não deveria.

Quando a televisão está fora do ar e a gente dá um tapa pra tentar consertar, é o raciocínio social nos fazendo acreditar que ela se comporta como uma pessoa iria.

Quando a gente tenta explicar de onde vem a chuva e conclui que alguém muito poderoso controla quando chove e quando não chove, de novo é nosso raciocínio social respondendo uma pergunta que não tem a ver com ele.

Nosso raciocínio social é tão forte que ele até elabora estratégias para fazer chover (ou parar de chover): é só agradar a pessoa poderosa que ela vai atender nosso pedido!

Se nosso raciocínio social faz a gente enxergar comportamento humano em lugares tão distantes quanto o sinal da TV ou a falta de chuva, fica fácil perceber que também enxergamos comportamento humano em todos os animais, de insetos a elefantes.

Nesse contexto podemos entender porque as fábulas com animais nos parecem tão naturais, mesmo que o comportamento desses animais na natureza seja bem diferente das histórias.

Se somos tão bons em enxergar personagens a partir de sinais gráficos simples e tão propensos a atribuir comportamento humano a qualquer animal, temos na soma dessas duas características a origem da nossa empatia por cartoons.

Não nos conectamos ao cartoon por causa de um “desenho animado interno” projetado por nós mesmo dentro de nosso cérebro, mas sim pela interação de sistemas no nosso cérebro originalmente criados para reconhecer outros seres vivos e entender emoções dos nossos pares.

Agora, como explicar a extrema popularidade de personagens cartoon na nossa cultura? Por que eles estão em todos os lugares? Temos de fato mais empatia por personagens cartoon que por personagens realistas?

Aguardem os próximos capítulos em breve aqui neste espaço!