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Artista Convidado

Cartoon VS Realismo

By | Artista Convidado | 3 Comments

Por Paulo Muppet

Nos últimos posts aprendemos como nosso cérebro identifica personagens cartoon e também como nos conectamos a eles emocionalmente.

Até agora, no entanto, aceitamos a afirmação do McCloud de que nossa cultura é obcecada por cartoons, mas será que isso é mesmo verdade? Será que existe uma maneira simples de levantar evidências dessa nossa suposta preferência?

Para responder a essa pergunta decidi fazer uma pesquisa na ferramenta Google Trends, que compara a frequência de termos específicos na busca do Google através do tempo.

Ela não serve para dar números absolutos, mas ajuda para dar uma idéia de quais termos são mais populares em determinado momento.

Selecionei 2 séries de TV populares com personagens filmados – Breaking Bad e Mad Men. Em seguida resolvi compará-las com 2 outras séries animadas mais ou menos da mesma época – Adventure Time e Gravity Falls.

Eis o gráfico de popularidade dessas séries na busca do Google:

Na média, Breaking Bad é a série mais popular, com o dobro da popularidade do segundo colocado, Adventure Time. Em terceiro vem outra série filmada, Mad Men e, por último, Gravity Falls.

Essa amostra não é exatamente científica, mas é evidência que, pelo menos entre usuários do Google as séries com personagens realistas levam vantagem em popularidade.

No entanto, nosso interesse não é nas séries em si, mas no “desenho” de seus personagens. E se, ao invés de comparar as séries na busca da web do Google, a gente resolvesse comparar seus PERSONAGENS dentro da busca de IMAGENS do Google?

Será que as pessoas buscam mais imagens do Walter White ou do Finn? Será que elas querem ver mais fotos do Don Draper ou do Dipper Pines? Eis o resultado:

Agora, “Finn the Human” aparece com MAIS DO DOBRO da frequência do seu concorrente “Walter White”, mesmo levando em consideração que Breaking Bad é duplamente mais popular que Adventure Time na outra pesquisa.

Dipper Pines também aparece como sendo duplamente mais popular que Don Draper, invertendo novamente a relação da primeira pesquisa.

Levando em consideração apenas esses dados, observamos que, proporcionalmente à popularidade de suas respectivas séries, as IMAGENS dos personagens cartoon são pelo menos QUATRO VEZES mais populares que as IMAGENS dos personagens REAIS.

Essa é uma proporção de fato surpreendente!

Vamos agora testar outra comparação, colocando na fila personagens desde muito gráficos até muito realistas. Será que dá pra argumentar que quanto mais cartoon, mais popular?

Fiz o teste com esses 5 candidatos dentro da busca de imagens: Hello Kitty, Mickey Mouse, Mario, Darth Vader e Hannah Montana.

Na sequência: Hello Kitty, Mickey Mouse, Mario, Darth Vader e Hannah Montana.

Eis os resultados:

Novamente, sei que esse é não é um método super científico, mas os resultados parecem incríveis para serem apenas coincidências.

Convido vocês leitores a testarem seus personagens prediletos no Google Trends e compartilharem nos comentários seus resultados. Será que vocês vão conseguir os mesmos resultados que eu?

No próximo post vou tentar usar a biologia (e um pouco de bom senso) para tentar explicar esses resultados! Boa pesquisa, turma!

E Se Darwin Fosse Um Desenhista? – Parte 4

By | Artista Convidado | 4 Comments

Por Paulo Muppet

No post anterior vimos que a habilidade de entender personagens a partir de dois pontos pretos é comum por toda a natureza e é uma “programação” herdada pelo menos desde nossos ancestrais com os peixes há milhões de anos atrás (na verdade, em peixes apenas um ponto em cada lado do corpo é suficiente, já que só vemos um olho de cada vez).

Longe de ser um avançado sistema de reconhecimento de rostos que depende de um cérebro sofisticado, ela é uma solução simples que usa um mínimo de sinais visuais para concluir uma informação muito relevante à sobrevivência.

Também vimos que um terceiro sinal, a linha da boca, é mais recente na evolução e está ligado a interpretação das emoções.

Animais que vivem em grupo em pelo menos parte de sua vida, que competem por comida, território ou parceiros reprodutivos foram selecionados de muitas maneiras em suas habilidades de comunicar emoções e em ler emoções alheias.

A pressão evolutiva de entender emoções ajudou a moldar em nosso cérebro a área chamada de raciocínio social.

O raciocínio social é super especializado em entender como as pessoas funcionam. Ele ocupa uma função tão grande em nosso dia a dia que frequentemente se mete em lugares onde não deveria.

Quando a televisão está fora do ar e a gente dá um tapa pra tentar consertar, é o raciocínio social nos fazendo acreditar que ela se comporta como uma pessoa iria.

Quando a gente tenta explicar de onde vem a chuva e conclui que alguém muito poderoso controla quando chove e quando não chove, de novo é nosso raciocínio social respondendo uma pergunta que não tem a ver com ele.

Nosso raciocínio social é tão forte que ele até elabora estratégias para fazer chover (ou parar de chover): é só agradar a pessoa poderosa que ela vai atender nosso pedido!

Se nosso raciocínio social faz a gente enxergar comportamento humano em lugares tão distantes quanto o sinal da TV ou a falta de chuva, fica fácil perceber que também enxergamos comportamento humano em todos os animais, de insetos a elefantes.

Nesse contexto podemos entender porque as fábulas com animais nos parecem tão naturais, mesmo que o comportamento desses animais na natureza seja bem diferente das histórias.

Se somos tão bons em enxergar personagens a partir de sinais gráficos simples e tão propensos a atribuir comportamento humano a qualquer animal, temos na soma dessas duas características a origem da nossa empatia por cartoons.

Não nos conectamos ao cartoon por causa de um “desenho animado interno” projetado por nós mesmo dentro de nosso cérebro, mas sim pela interação de sistemas no nosso cérebro originalmente criados para reconhecer outros seres vivos e entender emoções dos nossos pares.

Agora, como explicar a extrema popularidade de personagens cartoon na nossa cultura? Por que eles estão em todos os lugares? Temos de fato mais empatia por personagens cartoon que por personagens realistas?

Aguardem os próximos capítulos em breve aqui neste espaço!

E Se Darwin Fosse Um Desenhista? – Parte 3

By | Artista Convidado | 17 Comments

A primeira questão levantada por McCloud na disputa do Realismo vs Cartoon é a de como explicar nossa capacidade de reconhecer personagens em imagens tão abstratas quanto dois pontos pretos e um traço.

McCloud se utiliza do conhecido fenômeno da Pareidolia (ver post anterior) e argumenta que essa habilidade é fruto da nossa vaidade natural de enxergar nossos semelhantes em qualquer lugar.

Como posicionar a Pareidolia em um contexto evolutivo? Será a habilidade de ler faces em imagens abstratas uma adaptação humana ou um comportamento herdado dos nossos antepassados? O ponto de partida para responder essa questão é descobrir se outros animais também reconhecem personagens cartoon.

Por sorte, não precisamos convencer um tigre a ler a Turma da Mônica para isso, pois a natureza tem sua própria forma de Cartoon.

Todo mundo se lembra das borboletas e mariposas cujas manchas nas asas parecem olhos, exemplo clássico de mimetismo. Esses falsos olhos são chamados “ocelos”, e simulam olhos de animais maiores como a coruja, afastando os predadores.

Várias espécies de borboletas e mariposas se utilizam dessa estratégia, com desenhos variando em similaridade com olhos verdadeiros.

O fato desse tipo de disfarce ter sido favorecido pela seleção natural é evidência que mesmo desenhos menos elaborados já conferem vantagens para seus portadores.

Certamente as borboletas e mariposas não desenvolveram essas estampas para enganarem os seres humanos, então quais animais estão sendo enganados por esses pontos pretos em suas asas?

Entre os predadores conhecidos das borboletas e mariposas estão aves (corujas e outros pássaros), mamíferos (morcegos, gatos, vários roedores) e répteis (alguns tipos de lagartos). É razoável concluir que pelo menos parte deles reconhecem esse par de pontos pretos dispostos simetricamente como sinais fundamental de um animal maior.

Ora, aves e mamíferos são animais considerados inteligentes, será possível que eles também tenham seu próprio tipo de Pareidolia? Seria útil observar se esse mesmo tipo de mimetismo pode ser observado em animais cujos predadores sejam animais filogeneticamente “anteriores” como anfíbios ou peixes.

De fato, olhos falsos para espantar predadores podem ser observados em algumas espécies de peixes e sapos, cujos predadores figuram também entre animais com cérebros mais simples.

Aparentemente, a “programação” de reconhecer um “personagem” a partir de pontos pretos predata os homens em muitos milênios e provavelmente devemos compartilhá-la com animais tão diversos quanto aqueles cujos olhos também lembram pontos pretos.

Animais que usaram esse sinal visual simples para reconhecer parceiros, predadores ou presas certamente levaram vantagens evolutivas.

Faz sentido também imaginar que quanto mais genérica essa “programação”, mais tipos diferentes de olhos e consequentemente de animais ela era capaz de identificar. Em um mundo onde não existiam tomadas ou outros objetos artificiais, a probabilidade de dois pontos pretos do mesmo tamanho e dispostos simetricamente serem de fato olhos era grande, e a natureza nunca precisou atualizar essa programação para excluir da lista olhos falsos como aqueles que desenhamos em nossos personagens.

A resposta mais provável do porque reconhecemos personagens no cartoon não está na complexidade ou capacidade de abstração do cérebro humano, mas na simplicidade de um sistema que funciona nos animais muito antes de surgir o primeiro homem.

É curioso que o traço que representa a boca não é necessário para que esse sistema funcione, mas o fato de incluirmos a boca na nossa representação comum do personagem cartoon denota sua importância para nossa leitura de rostos e, em especial, das emoções.

Diferente dos pontos pretos dos olhos, que servem para que a gente reconheça o rosto de um animal, as bocas estão diretamente relacionadas com a demonstração de emoções.

Assim como no caso dos olhos, também é razoável acreditar que animais que comunicam emoções usando a boca, notadamente mostrar os dentes como sinal de ameaça, comportamento comum em muitos mamíferos, também devem reconhecer formas de boca simplificadas.

O traço que representa a boca, portanto, deve ser evolutivamente mais recente que os olhos e depende da presença deles para funcionar como abstração, enquanto os pontos pretos do mesmo tamanho não dependem de nenhum outro sinal para funcionarem.

Essa análise joga luz sobre o porque reconhemos personagens em desenhos cartoon, mas não diz muita coisa ainda sobre nossa conexão emocional com esses desenhos.

É sobre isso que falaremos no próximo post.

E Se Darwin Fosse Um Desenhista? – Parte 2

By | Artista Convidado | 2 Comments

Por Paulo Muppet

No post anterior levantei a questão se diferentes visuais/estilos de desenho de personagens provocariam diferentes intensidades de conexão emocional com o público. Em um extremo, a imagem fotográfica é realista, em outro extremo a imagem abstrata é simplificada do cartoon.

Um ótimo lugar para começar a responder essa questão é a obra fundamental sobre quadrinhos e narrativa visual Desvendando os Quadrinhos de Scott McCloud. Esse livro foi um divisor de águas na compreensão das narrativas visuais nos últimos 20 anos e Scott McCloud rapidamente tornou-se autoridade mundial no assunto, sendo convidado a palestrar nos mais importantes centros acadêmicos como a Universidade de Harvard, UCLA e MIT mas também em companhias na vanguarda da produção visual mundial, como Pixar, Google e Adobe.

Uma breve palestra sobre a pesquisa de Scott McCloud pode ser vista aqui.

McCloud acredita que nos conectamos mais intensamente com imagens cartoon do que com imagens realistas. Por isso, ele diz, personagens em cartoon são mais populares, mais duradouros e mais abundantes em nossa cultura.

Por quê nós somos tão envolvidos?

Por que iria qualquer um, jovem ou velho, responder ao cartoon tanto quanto ou muito mais do que a uma imagem realista?

Por que nossa cultura está tão atrelada à realidade simplificada do cartoon?

Para explicar esses fatos, McCloud usa dois argumentos principais.

O primeiro tem a ver com nosso auto-centrismo e o fenômeno conhecido como Pareidolia, a habilidade de enxergar rostos em qualquer lugar com duas bolinhas e um risquinho.

Esse “superpoder’, derivado de uma grande vaidade natural do ser humano, nos confere a facilidade necessária para identificar seres humanos nas formas abstratas do cartoon.

O segundo argumento tem a ver com nossa auto-imagem.

McCloud diz que quando observamos o mundo externo vemos uma imagem realista, com toda a riqueza de detalhes, cores e luzes que nossos olhos conseguem captar. No entanto, não podemos ver a nós mesmos a não ser que estejamos em frente a um espelho.

Segundo McCloud, nos colocamos no mundo criando um tipo de “projeção” de nós mesmos dentro da nossa cabeça. Essa projeção seria uma versão simplificada e com menos detalhes do que a imagem do mundo real.

Uma projeção interna mais próxima, portanto, do desenho do cartoon do que das imagens realistas.

Por isso, McCloud acredita, as imagens realistas falam do mundo externo, enquanto o desenho simplificado do cartoon nos conecta com nosso mundo interno, tornando mais fácil a empatia e conexão emocional com o personagem.

McCloud vai ainda mais longe em sua análise do significado do estilo de desenho, defendendo, por exemplo, que personagens cartoon contrastando com cenários realistas, como na tradição do mangá japonês, permitem ao mesmo tempo que o leitor se espelhe emocionalmente nos personagens enquanto experimenta a sensação de um mundo sensual e crível através dos cenários.

A narrativa de McCloud é bem construída e convincente, trazendo muitos argumentos e exemplos de várias ciências humanas e de uma excelente pesquisa de história da arte. No entanto, McCloud pouco se utiliza da biologia para colocar em cheque seus palpites e é exatamente isso que faremos nos próximos posts.

Mais uma vez, fiquem à vontade para comentarem aqui embaixo!

Obrigado e até breve!

E Se Darwin Fosse Um Desenhista? – Parte 1

By | Artista Convidado | 6 Comments

Por Paulo Muppet

A evolução talvez seja a ideia mais poderosa e elegante já pensada pelo homem. Ela ajuda a entender não só mistérios biológicos, mas também fenômenos astrofísicos, culturais, econômicos e se aplica a praticamente toda atividade humana.

A ideia nessa série de artigos aqui no blog do ICONIC é pensar arte e animação sob a ótica da evolução e explorar as descobertas e insights que essa ferramenta pode trazer ao nosso trabalho.

Afinal de contas, cara tripulação, Darwin também era um marujo a bordo do HMS Beagle.

Na minha palestra na primeira edição do ICONIC falei sobre Neotenia. Entender a Neotenia nos dá ferramentas objetivas apara analisar designs de personagens sob a ótica da nossa programação biológica.

Desenhar um personagem com proporções de bebê é GARANTIA de despertar reações positivas em QUALQUER ser humano, independente de gênero, cultura ou idade.

A Neotenia, no entanto, não diz nada sobre a estética do nosso trabalho.

Em quais estratégias seria importante investir, sob uma perspectiva biológica, na hora de criar um personagem? Seriam imagens realistas, com luz, volume e sombras próximas ao mundo real as imagens que mais nos emocionam?

Ou será que nossa biologia privilegia as imagens simplificadas, com cores puras e formas abstratas?

Lapis (Steven Universe) e Neytiri (Avatar)

Artistas se debruçam sob essa questão desde as primeiras pinturas nas paredes das cavernas.

Hoje ela continua aparecendo em discussões por toda a internet na forma de cartoon vs realismo, 2D vs 3D, fotografia vs pintura, desenho de observação vs desenho de imaginação.

O que Darwin diria?

Aguardem os próximos posts e fiquem à vontade para deixar comentários aqui embaixo!